segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mais (que) um cachorro-quente


- “[...]Olha só o quadro de professores, este é Mestre em Paris... Este é Doutor em São Paulo. Adorei, quero esta!” – Sentada à mesa de mármore esperando o jantar, acompanhando sites de pós-graduações em Salvador. Queria reconciliar o trabalho com a volta aos estudos. Estava de volta à cidade que lhe viu partir há cinco anos, quando foi buscar a educação que ela não lhe oferecera. Veio agora caminhar sobre o antigo calçamento marrom que lhe viu passar todos os dias de manhã, de casa em direção ao colégio da praça principal, e à Igreja, aos domingos; veio agora ajudar a divulgar que o asfalto cobrirá estes paralelepípedos, e toda sorte de desenvolvimento que a administração municipal trouxer. Em meio a fotografias de obras, tanto empenho de seus olhos buscava se esconder daquela construção, agora abandonada, que era a sua vida na cidade anterior; um lugar de pessoas e momentos marcantes, e que aqui, agora, não passavam de doces e doídas lembranças.

- “Muito bom, acho que vale o dinheiro, é uma Universidade bem renomada. Mas, se eu fosse você, planejaria isso para o começo do ano que vem.” - Dizia com a mesma naturalidade que cortava salsichas e tomates no balcão da pia.  Pensava com seus botões – e suas salsichas – como seria, e se houvesse, assim, de cara, seu emprego quando concluísse o curso. “Besteira se preocupar com isso agora”, ponderava, e se atentava para a quantidade de livros que ainda terá que ler daqui até lá – inclusive os que o esperam pacientemente na cabeceira da cama há algumas semanas, desde o começo da greve. Mas, em um soslaio, lembrava que a ansiedade já estava batendo à porta pelo seu primeiro trabalho, que o espera em dois meses. Poderia, enfim, não precisar avisar sempre aos seus pais que a conta de energia chegou e, finalmente, ouvir os baianos da Tropicália em bons watts de potência no mini-system que a sua vaidade sempre exigiu.

- “Continua procurando, achei muito caro, vai que você acha uma mais barata e tão boa quanto.” – Disse, ao ouvir o valor da especialização, n’uma de suas idas e vindas da cozinha, buscando algo mais light para comer, e que não irritasse suas aftas. Espelhava-se no quanto pagava em sua graduação em Pedagogia que, mesmo à distância, exigia além do tempo que o seu expediente dispunha. Talvez trouxesse consigo um receio quase que instantâneo na ideia de se adquirir novos débitos – seu salário de professora servia para pagar até promessa, de tantas contas.  Mas suas preocupações se diluíam ao perceber, olhando para o relógio, que sua novela começaria em minutos. Boa terapia.

- “O importante é analisar bem todas as possibilidades, entre preço, qualidade e viabilidade, para não ser precipitada. Mas, realmente, essa pós seria ótima para o seu currículo.” – Observava com precaução. Aliás, estas são duas palavras que lhe eram bem peculiares: se precavia tanto que preferia apenas observar, na maioria das vezes. Mas se o assunto fosse política, nem tanto. E esta economia de alocuções lhe ajudava a ganhar o tom de respeito e importância a cada vez que se pronunciava, com seu discurso de caráter conclusivo. Dizia isto bem antes de se queixar da má qualidade do vinho que bebia, mas que compensavam as boas azeitonas do prato de sobremesa. Calado ou não, estava em casa, e iria jantar ali, com seus filhos e esposa.

E assim vai se desenhando um jantar de terça em família. Comida simples, um dia rotineiro, mas um encontro entre os quatro que não vinha sendo tão frequente. Quatro mundos bem divergentes, mas que agora compartilhavam o mesmo pacote de pão.

- “Tenha uma boa noite.”

Nem precisava desejar, William. 

2 comentários:

  1. Eu só sei que li e reli.Fiquei surpresa de verdade. Não porque não o julgasse capaz de tal, apenas porque não conhecia esta faceta.
    Amei!
    Bjs querido.
    RV

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  2. Ow tia, muito obrigado! Aqui a senhora vai conhecer um pouquinho mais do seu sobrinho. ;)
    Beijos

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