sábado, 9 de junho de 2012

0 à esquerda


Ele nunca soube lidar com os controles de vídeo games, tampouco lhe apetecia aprender. Até hoje. Considerava dinossauros em miniatura plástica – destino irônico –, história egípcia e pães-de-mel infinitamente mais interessantes. Mesmo o futebol fora das fitas e botões só lhe preocupou até os doze anos, que é quando sua precoce aposentadoria vem pela invalidez do interesse; começa apenas a acompanhar das arquibancadas e a coleção de medalhas de campeonatos escolares torna-se mera lembrança de fundo de gaveta.
Nunca foi o primeiro a ser escolhido pelos dois capitães que selecionavam quais seriam do time com ou sem camisa – e sempre torcia para permanecer com a camisa, por achar branco demais para tirá-la. Mesmo sendo o dono da bola. Mesmo sendo amigo de um dos dois goleadores. Mesmo sendo filho do diretor do colégio em que jogavam – e isto é importante quando se tem 10 anos.
            Mas também não era o último. Com a estatura acima da média de seus colegas de “baba” – pelada ou racha, na Bahia – da mesma idade, naturalmente conseguia chutar mais forte, e conseguia fazer um gol assim, de vez em quando, apenas chutando forte, sem maiores técnicas e treinamentos, só o bico do pé e ele. Não tinha amor pela bola, não via motivos para beijá-la ao cobrar o pênalti. Falta de técnica tamanha que, por sinal, lhe foi empurrando cada vez mais para o fundo da quadra, local onde sua força poderia ser funcional. “Valeu, velho!” – escutava ao roubar a bola do ataque adversário e chutar para os seus companheiros que assistiam tudo da outra trave, esperando egoistamente a oportunidade de ganhar as glórias do contra-ataque. Dessa forma, foi fazendo amizades com os goleiros do próprio time, até que um deles virasse seu melhor amigo.
            Migrou para o karatê, mas percebeu que a faixa em sua cintura não migrava de cor. Indício que as artes marciais não eram a sua praia. No entanto, o kimono serviu para lhe mostrar que seus membros superiores poderiam obter mais habilidade que os inferiores. Assim, começou a participar das rodinhas de vôlei no recreio, aquele velho “um, dois, três e corta”. E enchia o coração quando conseguia atingir alguém em cheio. A maldade do seu olhar pedia embate, agressividade, pedia revide. Pedia que saísse daquele esporte feminino que só lhe fazia escutar gritos histéricos de quem fosse alvo.
            Mudou de colégio, e se apaixonou enquanto se surpreendia assistindo o esporte praticado em alguns intervalos. Viu que era uma paixão antiga dali, e não compreendia o porquê do não-sentimento nos colegas de outrora. As pessoas corriam, pulavam, se provocavam e se degladiavam para pegar aquela bola menor e mais pesada. Não usavam os pés. E todos a tocavam rapidamente e participavam da jogada, sem que o mérito fosse todo de quem a lançasse. Mas quem possuísse uma maior força física, levaria vantagem.  Perfeito.
            Não se percebeu e tão logo estava já adquirindo joelheiras e tênis apropriados. Locomovia-se mais de vinte quilômetros para o treino semanal sem pestanejar, e sorria ao pensar no motivo que o trazia pela segunda vez ao colégio naquele dia. Estava feliz por isso, e como não? Era o fim de um conturbado relacionamento que já perdurava anos, entre ele e as atividades físicas. Estava bem resolvido e amando.
            De repente, no momento mais sublime do handebol – o assalto à área adversária após os três impulsivos passos –, em slow motion, caiu. Foi derrubado por uma defesa desleal. Sentiu uma pancada forte na perna esquerda, caindo sobre ela ainda, para piorar. Nada doía mais que perceber sua perna dando trabalho em sua vida esportiva novamente.
            Depois do ocorrido, insistiu algumas vezes, mas o joelho pedia sempre arrego. Dada às circunstâncias, aposentou-se novamente, resolveu assumir sua inapetência esportiva e procurar um hobby que não constasse bolas. Foi aí que ele começou a escrever. 

5 comentários:

  1. Acho que abrir mão dos esportes e segurar a caneta é mal dos branquelos de estatura acima da média e pouca coordenação corporal. Vi todos os meus traumas de infância escritos por outra pessoa agora, haha.

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  2. hahah Mas no seu caso não é muito de se lamentar, todos agradecem o seu "mal". ;)

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  3. Esse outro "mal" também não pertence só a mim, fica a dica! ;P

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  4. Tão lindo, quanto sofrido. Tal qual a vida..
    Bjs meu.
    RV

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