quarta-feira, 27 de junho de 2012

Releitura


Era uma história cheia de interrogações, exclamações, reticências e grandes pausas entre intensos parágrafos. Era uma história que tinha um clima de madrugada, gosto de vinho, sons de boa música e um perfume que ainda não sabia definir, mas que o era bastante reconhecível.  Um texto que se desenrolava ao passar das horas, que mais pareciam minutos. Cada frase não conseguia sair, em sua mente, do mesmo cenário: uma noite chuvosa em um lugar que via toda a cidade. Sonhava com novos cenários. O final prometia – na verdade, o seu leitor começava a querer que o final não existisse. Começava a querer que aquelas letras o acompanhassem nos seus afazeres diários, queria que todas as alocuções passassem de alocuções; ganhassem vida. Queria que aqueles personagens, que até então de uma crônica fugaz, tornassem autores de um belo romance. Queria. Chegou ao fim da página e, logo então, percebeu na próxima um novo título. Percebeu que o leitor nada pode além de ler. Percebeu que são os personagens que escolhem o desenrolar da trama. E escolheram ser apenas crônica.

sábado, 9 de junho de 2012

0 à esquerda


Ele nunca soube lidar com os controles de vídeo games, tampouco lhe apetecia aprender. Até hoje. Considerava dinossauros em miniatura plástica – destino irônico –, história egípcia e pães-de-mel infinitamente mais interessantes. Mesmo o futebol fora das fitas e botões só lhe preocupou até os doze anos, que é quando sua precoce aposentadoria vem pela invalidez do interesse; começa apenas a acompanhar das arquibancadas e a coleção de medalhas de campeonatos escolares torna-se mera lembrança de fundo de gaveta.
Nunca foi o primeiro a ser escolhido pelos dois capitães que selecionavam quais seriam do time com ou sem camisa – e sempre torcia para permanecer com a camisa, por achar branco demais para tirá-la. Mesmo sendo o dono da bola. Mesmo sendo amigo de um dos dois goleadores. Mesmo sendo filho do diretor do colégio em que jogavam – e isto é importante quando se tem 10 anos.
            Mas também não era o último. Com a estatura acima da média de seus colegas de “baba” – pelada ou racha, na Bahia – da mesma idade, naturalmente conseguia chutar mais forte, e conseguia fazer um gol assim, de vez em quando, apenas chutando forte, sem maiores técnicas e treinamentos, só o bico do pé e ele. Não tinha amor pela bola, não via motivos para beijá-la ao cobrar o pênalti. Falta de técnica tamanha que, por sinal, lhe foi empurrando cada vez mais para o fundo da quadra, local onde sua força poderia ser funcional. “Valeu, velho!” – escutava ao roubar a bola do ataque adversário e chutar para os seus companheiros que assistiam tudo da outra trave, esperando egoistamente a oportunidade de ganhar as glórias do contra-ataque. Dessa forma, foi fazendo amizades com os goleiros do próprio time, até que um deles virasse seu melhor amigo.
            Migrou para o karatê, mas percebeu que a faixa em sua cintura não migrava de cor. Indício que as artes marciais não eram a sua praia. No entanto, o kimono serviu para lhe mostrar que seus membros superiores poderiam obter mais habilidade que os inferiores. Assim, começou a participar das rodinhas de vôlei no recreio, aquele velho “um, dois, três e corta”. E enchia o coração quando conseguia atingir alguém em cheio. A maldade do seu olhar pedia embate, agressividade, pedia revide. Pedia que saísse daquele esporte feminino que só lhe fazia escutar gritos histéricos de quem fosse alvo.
            Mudou de colégio, e se apaixonou enquanto se surpreendia assistindo o esporte praticado em alguns intervalos. Viu que era uma paixão antiga dali, e não compreendia o porquê do não-sentimento nos colegas de outrora. As pessoas corriam, pulavam, se provocavam e se degladiavam para pegar aquela bola menor e mais pesada. Não usavam os pés. E todos a tocavam rapidamente e participavam da jogada, sem que o mérito fosse todo de quem a lançasse. Mas quem possuísse uma maior força física, levaria vantagem.  Perfeito.
            Não se percebeu e tão logo estava já adquirindo joelheiras e tênis apropriados. Locomovia-se mais de vinte quilômetros para o treino semanal sem pestanejar, e sorria ao pensar no motivo que o trazia pela segunda vez ao colégio naquele dia. Estava feliz por isso, e como não? Era o fim de um conturbado relacionamento que já perdurava anos, entre ele e as atividades físicas. Estava bem resolvido e amando.
            De repente, no momento mais sublime do handebol – o assalto à área adversária após os três impulsivos passos –, em slow motion, caiu. Foi derrubado por uma defesa desleal. Sentiu uma pancada forte na perna esquerda, caindo sobre ela ainda, para piorar. Nada doía mais que perceber sua perna dando trabalho em sua vida esportiva novamente.
            Depois do ocorrido, insistiu algumas vezes, mas o joelho pedia sempre arrego. Dada às circunstâncias, aposentou-se novamente, resolveu assumir sua inapetência esportiva e procurar um hobby que não constasse bolas. Foi aí que ele começou a escrever. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Profecias autorrealizadas: você vê o que espera ver


Por Fábio Bracht,
papodehomem.com.br

Se você acha que consegue ou se você acha que não consegue, você está certo.” Henry Ford

A sua crença de que algo ou alguém é de uma certa forma muitas vezes é justamente o que acaba fazendo com que aquele algo ou alguém seja daquela forma.
Talvez você já tenha percebido essa dinâmica em ação na sua vida. Saiba que ela tem um nome: self-fulfilling prophecy. Em português, profecia autorrealizada. O termo foi cunhado apenas em 1950, pelo sociólogo Robert Merton, mas a dinâmica já vinha sendo observada e, por consequência, usada em obras de ficção desde muitos séculos atrás.

Exemplo 1: Colega novo de trabalho. Por algum comentário ou atitude aleatória, começa a ser taxado de cuzão. Alguém comenta: “Nossa, você viu tal coisa que o Fulano fez? Muito cuzão, cara. Muito cuzão.” Todos começam a se relacionar com o cara novo a partir dessa perspectiva. A dinâmica foi sutilmente instalada, e a maioria das interações passam a ocorrer num palco em que esse é o personagem que o Fulano representa.
Em algum momento, Fulano faz alguma coisa realmente cuzona – como qualquer pessoa faz às vezes, já que todos temos essa capacidade. “Falei que ele era cuzão! Tá vendo?!”

Exemplo 2: Casal de namorados. Felizes, até que um dia ele encontra uma suposta evidência de que ela possa estar tendo um caso com outro. Dentre as várias atitudes que ele poderia ter, começa a pensar que ela possa mesmo ser uma traidora. Ações dela que antes passavam despercebidas agora, sob essa nova dinâmica, parecem golpes e confirmações da suspeita. Ela percebe que algo está errado. O relacionamento entra em crise. Ela se torna mais aberta a conhecer alguém melhor. Algum tempo depois, ela termina com o namorado. Diz que conheceu alguém com quem simplesmente se sente melhor. “Falei que ela estava me traindo! Tá vendo?!”

O livro You Are Not So Smart dedica o capítulo 42 inteiro às profecias autorrealizadas. O autor David McRaney explica que as pessoas tendem a agir conforme as “etiquetas” que colocamos nelas. Em um experimento feito em 1978, professores foram informados que alguns de seus alunos possivelmente seriam superdotados, de acordo com resultados de testes de QI que haviam feito. Mentira. Os alunos não fizeram nenhum teste e eram normais. Mas as suas notas começaram a melhorar.
Apenas por acreditarem que os alunos poderiam ser superdotados, os professores passaram a agir com eles dentro de um outro prisma, esperando o melhor e acreditando nos seus resultados. Por sua vez, isso motivou os alunos.
Levando essa lógica para o lado negativo:

  • pessoas zoadas na escola podem passar a acreditar que são “dignas” daquele tratamento.
  • caras que sofrem dois ou três fracassos em conquistar mulheres podem passar a acreditar que não são capazes de conquistar ninguém, parando de tentar.
  • mulheres que sofrem duas ou três traições podem passar a acreditar que nenhum homem presta e agir com ciúmes e possessividade em qualquer relacionamento, efetivamente ajudando a causando suas próprias futuras traições.
  • um aluno de música com dificuldades em afinar o seu instrumento “de ouvido” pode começar a achar que, se não consegue nem isso, muito menos será capaz de aprender teoria musical ou composição.
  • um solteiro que tenta fazer um arroz básico e queima a comida pode se convencer de que é “um desastre” na cozinha e acabar nunca tentando um prato mais elaborado.
Um último exemplo, dessa vez autobiográfico.
Há alguns meses, em uma atitude que não consigo descrever com outro termo a não ser “burrada”, dei o pontapé inicial em uma dívida que cresceu relativamente rápido e me tirou o sono por muito tempo. Arrasado por dentro por ter me permitido chegar a tal ponto graças ao que eu entendia como pura burrice, eu me convenci de que não sabia lidar com finanças. Parecia real para mim. E assim foi.
Meses depois, busquei ajuda de algumas pessoas, e algo fascinante aconteceu: elas me trataram não como o idiota que havia se permitido entrar em dívidas por um motivo facilmente evitável, mas sim como uma pessoa inteligente que cometeu um erro mas tinha total capacidade de sair dessa situação tão fácil como havia entrado. Parecia real para elas. E assim foi.
A realidade é menos definitiva do que parece. É plástica, moldável e diferente para cada um de nós. As coisas que você vê ao seu redor só estão aí, do jeito que estão, porque você está aí para percebê-las do jeito particular que você as percebe.
O aqui e o agora que você tem são frutos do seu olhar específico, que poderia ser outro, das suas crenças, que poderiam ser outras, do seu estado mental, que poderia ser outro. A vida pode ser inteiramente diferente para duas pessoas que estão exatamente no mesmo lugar, ao mesmo tempo, vendo e ouvindo e sentindo e cheirando e tocando as mesmas coisas.
O processo de construção da realidade é como se estivéssemos em uma caixa completamente preta, sem nenhuma luz, sem enxergar nada, e para saber como são as coisas, precisamos perguntar. “De que cor?” “É azul!” “Está frio?” “Não!” “Eu sou amado?” “Sim!” E assim você vai construindo o seu mundo, de acordo com as perguntas que faz.
E quem responde essas perguntas quando elas são feitas pelas pessoas próximas? Nós mesmos. Nós temos meios de influenciar alterações na realidade dos outros – assim como eles têm de fazer isso na nossa. A mágica é estar ciente desse processo.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mais (que) um cachorro-quente


- “[...]Olha só o quadro de professores, este é Mestre em Paris... Este é Doutor em São Paulo. Adorei, quero esta!” – Sentada à mesa de mármore esperando o jantar, acompanhando sites de pós-graduações em Salvador. Queria reconciliar o trabalho com a volta aos estudos. Estava de volta à cidade que lhe viu partir há cinco anos, quando foi buscar a educação que ela não lhe oferecera. Veio agora caminhar sobre o antigo calçamento marrom que lhe viu passar todos os dias de manhã, de casa em direção ao colégio da praça principal, e à Igreja, aos domingos; veio agora ajudar a divulgar que o asfalto cobrirá estes paralelepípedos, e toda sorte de desenvolvimento que a administração municipal trouxer. Em meio a fotografias de obras, tanto empenho de seus olhos buscava se esconder daquela construção, agora abandonada, que era a sua vida na cidade anterior; um lugar de pessoas e momentos marcantes, e que aqui, agora, não passavam de doces e doídas lembranças.

- “Muito bom, acho que vale o dinheiro, é uma Universidade bem renomada. Mas, se eu fosse você, planejaria isso para o começo do ano que vem.” - Dizia com a mesma naturalidade que cortava salsichas e tomates no balcão da pia.  Pensava com seus botões – e suas salsichas – como seria, e se houvesse, assim, de cara, seu emprego quando concluísse o curso. “Besteira se preocupar com isso agora”, ponderava, e se atentava para a quantidade de livros que ainda terá que ler daqui até lá – inclusive os que o esperam pacientemente na cabeceira da cama há algumas semanas, desde o começo da greve. Mas, em um soslaio, lembrava que a ansiedade já estava batendo à porta pelo seu primeiro trabalho, que o espera em dois meses. Poderia, enfim, não precisar avisar sempre aos seus pais que a conta de energia chegou e, finalmente, ouvir os baianos da Tropicália em bons watts de potência no mini-system que a sua vaidade sempre exigiu.

- “Continua procurando, achei muito caro, vai que você acha uma mais barata e tão boa quanto.” – Disse, ao ouvir o valor da especialização, n’uma de suas idas e vindas da cozinha, buscando algo mais light para comer, e que não irritasse suas aftas. Espelhava-se no quanto pagava em sua graduação em Pedagogia que, mesmo à distância, exigia além do tempo que o seu expediente dispunha. Talvez trouxesse consigo um receio quase que instantâneo na ideia de se adquirir novos débitos – seu salário de professora servia para pagar até promessa, de tantas contas.  Mas suas preocupações se diluíam ao perceber, olhando para o relógio, que sua novela começaria em minutos. Boa terapia.

- “O importante é analisar bem todas as possibilidades, entre preço, qualidade e viabilidade, para não ser precipitada. Mas, realmente, essa pós seria ótima para o seu currículo.” – Observava com precaução. Aliás, estas são duas palavras que lhe eram bem peculiares: se precavia tanto que preferia apenas observar, na maioria das vezes. Mas se o assunto fosse política, nem tanto. E esta economia de alocuções lhe ajudava a ganhar o tom de respeito e importância a cada vez que se pronunciava, com seu discurso de caráter conclusivo. Dizia isto bem antes de se queixar da má qualidade do vinho que bebia, mas que compensavam as boas azeitonas do prato de sobremesa. Calado ou não, estava em casa, e iria jantar ali, com seus filhos e esposa.

E assim vai se desenhando um jantar de terça em família. Comida simples, um dia rotineiro, mas um encontro entre os quatro que não vinha sendo tão frequente. Quatro mundos bem divergentes, mas que agora compartilhavam o mesmo pacote de pão.

- “Tenha uma boa noite.”

Nem precisava desejar, William.