quarta-feira, 30 de maio de 2012

"Marmelada de banana"


Este foi um episódio quando da volta à visita de minha prima, essa menina Kedma, a João Dourado, escrito por ela mesma.
Da próxima, pense duas vezes antes de levar um pouco da Bahia para São Paulo, Ked!

"Morro do Chapéu é uma cidade do sertão baiano, que fica a uns 62km de João Dourado. Foi nossa primeira parada no ônibus que saiu de JD na segunda-feira à noite. Seriam 8 horas de viagem até Salvador, e todos já estavam praticamente dormindo no semi-leito. A parada em Morro do Chapéu, supus, seria pra entrarem mais um ou dois passageiros, já que o ônibus estava praticamente cheio. Entrou um homem, caminhou até o final do carro, entre as cadeiras, olhando tudo, saiu. Voltou com mais dois homens, as luzes do ônibus foram acesas, foram até o final olhando tudo, saíram. Ali nós já percebemos que eram policiais atrás de alguém/algo. Voltaram os três policiais juntamente com o motorista do ônibus: "Boa noite, senhores. Qual de vocês tem a bagagem de número cinco-oito-cinco-dois-dois-sete-cinco"? Bom, eu sou muito sistemática e havia decorado os números finais das quatro malas que estavam sob minha responsabilidade (bagagem minha, de D. Micol e de tio Ruben). Levantei o braço: "É minha". O policial: "A senhora pode nos acompanhar aqui fora, um minuto, por favor"? Na hora imaginei que a mala, lotadíssima, havia estourado e causado algum transtorno. Quando desci do ônibus, vi que a mala estava do lado de fora, bonitinha, fechadinha.
Policial 1: "Esta mala é da senhora"?
Eu: "Sim".
Policial 1: "Estamos achando esta mala muito pesada. A senhora poderia abrir, por favor, para verificarmos o conteúdo"?
Eu: "Pois não". (E já comecei a ter vontade de rir)
Abri a mala, e o cenário era aquele que você imagina de uma mala de alguém que viajou e quis comprar tudo que achou. Sapato, pacotinho de presente, panela, bugigangas mil... e doces em barra.
Policial 2, começando a revirar a mala: "Por que ela está tão pesada"?
Eu: "Tem muita bananada em barra".
Policial 1, rindo: "Ah, é doce"!
Policial 2 continua a revirar a mala, acha o pacote com as bananadas: "É isso aqui o doce"?
Eu: "É um dos pacotes"...
Policial 2 pega uma bananada, cheira... põe de volta na mala, ao mando do policial 1, que diz: "Deixa a menina levar os doces dela. Se fosse ela, não estaria aqui mostrando a cara e a bagagem. Pode fechar a mala, por favor".
E quem disse que eu conseguia fechar a mala, depois de tanto terem revirado? Precisei da ajuda dos policiais. E voltei pro ônibus, onde tio Ruben já perguntou preocupado: "O que foi, filha"? E eu respondi baixinho a ele e mamãe, que também esperava a resposta: "Suspeita de tráfico de bananada".

terça-feira, 29 de maio de 2012

Aquela assim


Ela tinha aquele olhar de querer; e, tão logo, não querer mais, assim, de repente. Trazia consigo aquela voz doce de menina doce, rouquidão de quem é maior que as circunstâncias – mas o querer do olhar não escondia suas vontades. Ou escondia, na verdade, ou talvez sequer não houvesse essa vontade do meu querer que ela queira. Ela era assim, tal como tais linhas: confusa, incerta, ou certa de confundir.
Ela tinha aquele andar de saber; para onde vai, decidida – sem titubear –, o que fazer quando chegar e por onde pisar, bordando o ponto sempre após o nó. Como também faz com as palavras. Vinha com o balançado de quem raciocina qual será o próximo trajeto após este – sem deixar de notar-se alvo dos olhares, e sorrir para eles. Ela era assim, consciente de si e dos que lhe cercam, e até onde podem lhe cercar.
Ela tinha aquele brincar de dizer; e, com isso, dizia tudo. Às vezes meias verdades, ou até nada – o que, certamente, recheava-se de significados propositados por esta moça, que não se sabe se diz pelas canções, ou se as canções a dizem de si. Ela é assim, eu-lírico e personagem, autora e musa inspiradora, uma ficcionista de ‘fatos verídicos’.