segunda-feira, 6 de junho de 2011

Deletérias tentativas anti-saudosistas

Mais um estudante universitário, de direito, fora de casa. Mais uma sessão terapêutica textual pseudo-eficiente sobre as dificuldades. Mais um texto sobre a saudade. O genérico habitual se expressa nestas “mal traçadas linhas”, expandindo ao ponto de anular quaisquer características alternativas neste “tubo infecto de elétrons” cibernético personalizado, antes tão aparentemente originais. Mas o que realmente importa?
Queria eu transcender à realidade toda a teoria do desapego infanto-material, ignorando a existência de algumas paredes verdes no interior baiano, riscadas aleatoriamente e coladas tatuagens de chiclete por um menino branco e loiro, deveras preocupado com pão-de-mel e desenhos animados que não fossem japoneses. Não antes de apagar da memória qualquer resquício de um tanque velho que virou piscina quando recebeu azulejos brancos e azuis, mas sempre sob a sombra de uma mangueira com raras mangas, num quintal mais imponente que a casa.
Queria eu, sem a menor culpa, esquecer a necessidade dos bons dias e boas tardes, tão forçadamente naturais, dados a todos os meus conhecidos, amigos, conhecidos dos amigos e amigos dos conhecidos que cruzavam o longo percurso - que deveria ser uma bonita praça – de terra vermelha, algarobas, amendoeiras e pardais até a escola ou a loja de meu pai.
Ah, meu pai. Nessas três letras, tão conceitualmente entrelaçadas às outras maternas também três, encerram aqui tão deletérias tentativas de irreconhecer o passado. Pois tornam-se inúteis as páginas escritas sem ambas as palavras que me deram a vida, e a chamam para si. Pai e mãe; a mínima pronúncia inerte dos vocábulos já me desiste da idéia antiquada do desapego infanto-material. De onde diabos eu tirei isso?! Há materiais muito mais providos de sentimentalismo que certos indivíduos, porque contam uma história somente pela própria existência. Objetos que cercam dezoito anos de convivência familiar.
 Convenço-me, agora: esquecer não remedia a dor da ausência. 

3 comentários:

  1. Sabe é inveja branca que você falou ontem? Pois é, foi outra pessoa quem sentiu hoje. =)

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  2. Sua sensibilidade pra traduzir um sentimento q também e meu, me emociona ao aflorar tudo q tento manter guardado...
    Nana

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  3. Nana, que privilégio o meu! Obrigado!
    E, Vanessa: ahan (y) hauahuahua
    Mesmo assim, obrigado. ^^

    beijos

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