terça-feira, 28 de junho de 2011

A casa caiu

Estou branco
O riso manco
A voz trêmula
Lembrança doce
Realidade, antes fosse
A essa dor em fina flâmula
Pisada seca, oscilante, de salto
Vibrante, entretanto, não mais alto
Qu’estas batidas quiçá de carro e asfalto
Mas não, é deste coração assalto
Que lhe esperou em bom som
Em tom de deveras odiar
Em dom de amar
Seus vermelhos
Boca e sangue.

domingo, 19 de junho de 2011

Trago um cesto de alegrias de quintal

Normalmente não indico músicas-marketing, o hit do CD, single, ou algo do tipo. Essas canções são ótimas para o artista, que vende e populariza sua obra, mas penso que também o limita e o rotula.
Palco - Gilberto Gil, regravada por Djavan - não chega a tanto, porém, sua notoriedade não a deixa ser uma jóia encoberta pela poeira dos LP's. Mesmo assim, a doçura de sua melodia, o encaixe de sua letra e a harmonia dos arranjos a faz típica daquelas que a gente ouve do começo ao fim e, numa breve análise do escutado, apenas clica novamente no Play.

sábado, 18 de junho de 2011

Herança de Gonzaga

São como fantasias carnavalescas, as bandeirolas nordestinas. Coloridas, inauguram a eminente alegria de voltar à terra: sentimento tão doce quanto a canjica, o bolo de milho e o pé-de-moleque, sensação que não precisa de quentões, licores e caipiroscas para sublevar-se. A festa junina, fria e acolhedora, trás à memória as raízes de um povo e sua afável simplicidade; trás à memória uma família que se senta à mesa, aos risos, para jantar pamonha com queijo coalho e café com leite. O choro da sanfona - que é meu também - marca o ritmo desse constante baião de dois: a saudade de casa e eu. 

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Coincidências e confirmações

“[...]Alguma palavra, aquelas canções
O mundo assim parece tão pequeno
E eu continuo tendo visões.

Eu
Penso
Em
Você. “

(Kid Abelha)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Declarações de mesa



Sinuosas são as curvas deste corpo que a protege, minha negra deliciosa. Companheira libertina e barata das madrugadas ilusoriamente frias, tens o doce assaz aprazível; teu forte é outro, outrossim. É o amargo viciante do teu âmago derradeiro, fim-de-gozo, restos de prazer. Engulo-lhe n’uma incandescente lascívia, fonte de petróleo viscoso e jorrante que sustenta minha sociedade. Queima agora todo este músculo palativo que suga e penetra tuas vísceras, deleitosa preta que é puro fogo, calor e suor. Só não vá embora agora que te provei quatro vezes seguidas: deixe-me lhe apreciar mais uma vez, querida xícara de café.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Deletérias tentativas anti-saudosistas

Mais um estudante universitário, de direito, fora de casa. Mais uma sessão terapêutica textual pseudo-eficiente sobre as dificuldades. Mais um texto sobre a saudade. O genérico habitual se expressa nestas “mal traçadas linhas”, expandindo ao ponto de anular quaisquer características alternativas neste “tubo infecto de elétrons” cibernético personalizado, antes tão aparentemente originais. Mas o que realmente importa?
Queria eu transcender à realidade toda a teoria do desapego infanto-material, ignorando a existência de algumas paredes verdes no interior baiano, riscadas aleatoriamente e coladas tatuagens de chiclete por um menino branco e loiro, deveras preocupado com pão-de-mel e desenhos animados que não fossem japoneses. Não antes de apagar da memória qualquer resquício de um tanque velho que virou piscina quando recebeu azulejos brancos e azuis, mas sempre sob a sombra de uma mangueira com raras mangas, num quintal mais imponente que a casa.
Queria eu, sem a menor culpa, esquecer a necessidade dos bons dias e boas tardes, tão forçadamente naturais, dados a todos os meus conhecidos, amigos, conhecidos dos amigos e amigos dos conhecidos que cruzavam o longo percurso - que deveria ser uma bonita praça – de terra vermelha, algarobas, amendoeiras e pardais até a escola ou a loja de meu pai.
Ah, meu pai. Nessas três letras, tão conceitualmente entrelaçadas às outras maternas também três, encerram aqui tão deletérias tentativas de irreconhecer o passado. Pois tornam-se inúteis as páginas escritas sem ambas as palavras que me deram a vida, e a chamam para si. Pai e mãe; a mínima pronúncia inerte dos vocábulos já me desiste da idéia antiquada do desapego infanto-material. De onde diabos eu tirei isso?! Há materiais muito mais providos de sentimentalismo que certos indivíduos, porque contam uma história somente pela própria existência. Objetos que cercam dezoito anos de convivência familiar.
 Convenço-me, agora: esquecer não remedia a dor da ausência. 

Abrigo literário

Por Vanesa Ísis


Embora pareça de ferro, meu coração, assim como o do José Saramago, é de carne. E sangra todos os dias. Esconder os sentimentos a qualquer preço é algo que pode, verdadeiramente, transformar qualquer um num poço de solidão. Solidão esta que não dura cem anos, como a do García Marquez, mas que possui o dobro da intensidade da tristeza da Clarice Lispector. Buscando esconder atrás de armaduras inspiradas nas do Caio Fernando Abreu, por vezes me vejo tão perdida quanto a Sylvia Plath. Escondendo-me por trás dos livros do Machado de Assis, tenho a certeza que nunca vou viver uma aventura à lá Agatha Cristhie ou salvar o mundo como todos os personagens - sempre tão iguais e previsíveis - do Dan Brown. Augusto Cury não me cura, sou como o Zeca Baleiro: não suporto livros de auto-ajuda. Mas quem vem me ajudar e me dar o seu bem? Ninguém. Não tenho vocação para romances Sheakespereanos, ninguém morreria por mim. E digo isso com a mesma convicção da Ana Cristina César, que acabou tão covarde no seu ato de coragem.  Essa interligação ficou visível para mim desde que uma amiga me comunicou que eu nasci com um defeito de fábrica: uma gramática ou outro livro qualquer no lugar do coração. A única coisa que eu não podia supor era que uma gramática poderia guardar nas entrelinhas tanto desespero e vontade de sumir.



Brisas quentes, ventos frios
http://vanessaisisg.blogspot.com/