terça-feira, 17 de agosto de 2010

Abbey Road, Clube da Esquina e outras influências

 


Por Nelson Bomilcar


Quando falamos de influências recebidas, como evangélicos, quase sempre negamos o que recebemos "dos de fora", ou negamos nossa história "pré-conversão". Como se não fizesse parte da história de Deus em nossas vidas. Até por que isto não soa santo, espiritual, cristão, evangélico, puro, inspirado ou profético.

Muito desta postura e pensamento existe porque na base e no fundamento teológico de muitos, o mundo foi criado por Satanás e não por Deus, de que o diabo é criador e não criatura, que os homens são criaturas das mãos do diabo e não de Deus, distorcendo a revelação das Escrituras Sagradas. Demos indevidamente o copyright ao inimigo de nossas almas sobre a criação e sobre as artes, e não ao Senhor Deus, Criador, Senhor e Soberano sobre tudo e todos.

História é história, não há como negar ou fazer desaparecer influências que tivemos e ainda temos, e quando tentamos fazer isto, entramos em processos de sublimação, de alienação, de fuga da realidade, sinais de doença instalada e que sugerem a necessidade de processos terapêuticos e de aconselhamentos posteriores.

Alguns ainda sugerem uma tal e distorcida "cura interior" do passado, como se toda a herança e formação que tivemos fossem necessariamente ruins. A herança “adâmica” sim, em nossa natureza, que não nos ajuda no caminho da salvação e redenção. Mesmo assim, ela ainda nos acompanhará até o final dos tempos. Mas outras heranças, com outro foco, de formação cultural, por exemplo, podem ter sido excelentes e nos balizam ainda hoje no que somos, pensamos e fazemos na vida.

Isto não significa que estas pessoas, pensadores ou artistas, são exemplos em tudo de conduta, muitos com vidas e histórias cheias de crises e pecados (como os homens e mulheres da Bíblia). Mas tiveram ou têm alguma capacidade no que fizeram, ou um bom legado que deixaram, seja na área educacional, científica ou artística.

Eu, que não tive "berço evangélico" ou "maternidade evangélica" (afinal, ouvia quase sempre de irmãos: "[...]Eu nasci na Igreja..."), fui menos preconceituoso com o que recebi através de pessoas não cristãs. Em minha formação familiar e estudantil, por exemplo, tive ótimos referenciais e professores que me ajudaram a absorver valores, cultura e informação. Louvo a Deus hoje por eles, e sei que foi Ele mesmo que planejou e os colocou em minha vida. Aprendi inclusive com os erros, limitações, "pisadas na bola" e enganos deles.

Lembro-me do meu irmão Roberto me levando a um show com um público de umas 50 pessoas somente, no teatro da Fundação Getúlio Vargas para assistir um "tal" de Milton Nascimento, Lô e Marcio Borges, Wagner Tiso, Nelson Ângelo, Beto Guedes, Toninho Horta, cantando e tocando coisas maravilhosas deles e de Fernando Brant. De que planeta estes músicos maravilhosos vieram? Quanta beleza e criatividade! Eram do Clube da Esquina, hoje transformado em museu e espaço histórico.

Daí, veio a conversão dos 17 para os 18 anos em 1972. Entro na igreja evangélica e tenho um choque cultural e musical. Começo a tomar contato com músicas do Cantor Cristão, hinário batista, ouvir todos os dias minha mãe tocar ao final de tarde hinos que viriam a fazer parte de minha vida, acompanhar cantatas tocando e cantando, gravar discos evangélicos, fazer parte de um momento na história da igreja no Brasil de avivamento em trabalhos com juventude e da experiência de Vencedores por Cristo.

Por imaturidade e ignorância, anos antes vendi minha guitarra Gibson por achar que não poderia usar "um instrumento que usava na velha vida". Mas tinha uma outra que guardei (pecador eu, não?), uma Fender Jaguar Branca, igual a do Jimi Hendrix, onde toquei e solei no dia do meu batismo dentro de uma igreja batista tradicional o "Vencendo Vem Jesus", com o histórico pedal Big Muff. Quando descobri que instrumento é só "um instrumento", comprei novamente uma Gibson, testemunha até hoje de boa parte da história recente da música cristã.

Um grande amigo nesta época, Gerson Ortega, músico e hoje pastor, ajudou-me muito a lidar com a questão da música. Sentia-me "menos culpado" de ainda gostar de música chamada secular ou "do mundo" quando encontrava na casa dele algum disco de conjuntos e músicos não cristãos que admirávamos.

Inclusive por que pensava e continuo pensando que a criatividade e inspiração têm sido dada a pessoas e artistas não cristãos, que de alguma forma manifestam a criatividade de Deus. Isto é, um incrédulo pode ser mais ou tão criativo do que um crente confesso. É o que constato quando analiso as artes de maneira geral, e quando ouço a mesmice e a falta de criatividade das composições e produções chamadas evangélicas de nossos dias.

O Deus das Escrituras, O Grande Artista, está na simplicidade da vida, nos relacionamentos, no cotidiano, e manifesta sua presença e criatividade também nas artes e em artistas em toda a história. Precisamos é perceber e identificar Sua presença. "Repreender" menos o conteúdo de nossa história e APRENDER mais dela. E adorar a Ele, porque esteve sempre presente em nossa caminhada!



Nota do blog: Nelson Bomilcar é teólogo batista, membro da Associação de Músicos Cristãos do Brasil (AMC), produtor, cantor e compositor do grupo Vencedores Por Cristo, pioneiro da música evangélica brasilera (1968).





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