sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ser passarinho



Tenho a ansiedade; ele, liberdade.
Tenho a vontade de sê-lo, pela sua praticidade,
Pelo seu conhecimento de toda a cidade,
Pela funcionalidade de suas asas, a sua enormidade.
Sua avidez, suavidez, sua simplicidade,
Sua presença nos versos e canções, a sua amabilidade.

A capacidade de enfrentar os desafios com veracidade,
A riqueza que faz dos seus valores, pureza, respeitabilidade.
Se alimenta da humildade, quando não reparte à amizade;
Sensibilidade ao perigo, protege a hereditariedade,
Sem hesitar, sequer um instante, a fidelidade à posteridade.

Conquistam-me a estabilidade do seu voo, o alcance de sua invergabilidade,
Dos seus atos, a fugacidade, efemeridade, dividindo espaço com a intensidade.
Voluptuosidade de morar nas alturas, a mais límpida vivacidade.

Eu vou, ser passarinho,
Eu voo, ser passarinho,
Eu vou ser passarinho.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O porquê deste Blog ser preto-e-branco




Tempos atrás, o controle procurava algo interessante pra se ver na televisão. Meio distraído com as batatas fritas, encontrei a MTV; além do Marcelo Adnet e o Quinta Categoria – por sinal, excelentes –, não conhecia muito. Fui apresentado ao LAB, um programa de clipes nacionais e internacionais. Pensei: Que lixo! Ainda bem que essas coisas não demoram a desaparecer. Não o LAB, muito menos a MTV, mas aquele grupo de meninos que miavam alegremente ao som do que pensam que é Rock n’ Roll.

Como toda praga, reproduziram-se rapidamente. Propagaram a receita do ridículo: Calças e camisetas muito menores que o número do corpo, desde que sejam infinitamente grudadas e coloridas. Como se não bastasse, o cabelo deve estar lambido e, no mínimo, cobrindo um dos olhos. Estes, impossíveis de se localizar, imersos nos devidamente cintilantes óculos. Não, eu não estou falando dos Teletubbies, apesar deste ser um grande concorrente em qualidade vocal. São os Coloridos, generalizados assim por um bondoso eufemismo – qualquer semelhança com o apelido dado aos homossexuais do Big Brother Brasil por Pedro Bial é mera coincidência.

“Quanta intolerância”, “é só uma modinha”, “coisa de pré-adolescente”, alguns podem até pensar. Veja bem, quem não se lembra das Chiquititas? Sandy & Junior? Até mesmo do recente RBD? Em todas essas “modinhas de pré-adolescente”, há algo em comum: A permanência do bom-senso. Havia um aprendizado, mesmo que fosse da língua espanhola, somente; Chiquititas chegava a ser educativo e os irmãos eram, de fato, cantores.

Enquanto imperava o Nx Zero – atual banda pseudo-tradicional da geração –, estava suportável. Entretanto, como numa evolução pokemonesca, surgiram Fresno, Restart, Cine (inimiga mortal da anterior), Hori (do filho que não puxou o pai), Tókio Hotel, dentre outras comicidades.

A pouca idade não é justificativa para a falta de profundidade nas letras e de personalidade na banda: Chico Buarque tinha apenas vinte anos quando os militares anunciaram o Golpe Militar de 64. Já em 1969, exilou-se na Itália por determinação do Regime, sendo um dos artistas mais ativos na crítica política e na luta pela democratização do Brasil. Uma de suas principais músicas no combate à repressão, Cálice, tem um título bem propício a essa prole de emos invertidos da atualidade, além de praticamente humilhá-los numa dolorosa aula de como se compõe um poema digno de se cantar.

Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré, claro, afora Caetano Veloso, Gilberto Gil e mais alguns jovens gênios. E os Coloridos, o que reivindicam? Que a gola “V” da camisa seja cavada até o umbigo? Reivindiquemos nós a paciência necessária para suportar esse cúmulo que está invadindo o espaço público, esse distúrbio sonoro-visual. Antes a corrupção, para que o colorido existente seja das tintas de uma juventude conhecida por suas Caras Pintadas; que pensam no impeachment dos podres poderes que comandam a sua nação. Enquanto isso não acontece, permanece, aqui, o luto.

domingo, 22 de agosto de 2010

Muros visíveis e invisíveis*


Seja na construção física, seja na análise sociológica em que o termo é metaforicamente empregado, o muro tem a técnica função de separar, dividindo ambientes de ambientes, pessoas de ambientes e pessoas de pessoas.
   Uma parede que, inicialmente, foi erguida com a intenção de proteger os que se encontram no interior daquele espaço delimitado por ela, acaba revelando o processo excludente que a sua porção exterior proporciona àqueles que são marginalizados. É o caso do vidro da janela do carro, possivelmente fumê – como se a escuridão camuflasse a verdade social – e elétrico, que sobe avilmente ao aproximar-se um atingido pelas mazelas da desigualdade que a sociedade capitalista promove, também conhecido como “menino de rua”.
   O Muro de Berlim talvez seja o melhor exemplo da segregação visível e invisível já executada pelo homem, em que tijolos funcionavam antagonicamente como destruição. Eram separados países, famílias e sistemas econômicos, representando assim uma guerra que a frieza não era só no nome.
   É preciso uma situação mais estável e igualitária, para que se alcance melhores índices de qualidade de vida das massas, em detrimento das divisões, num contexto em que a ação se faça presente, para não se tornar mais um discurso demagógico. Para tanto, os muros a serem construídos devem se localizar em casas populares e instituições educacionais, onde as classes separadas sejam as escolares, e não as sociais.


* Tema da redação proposto pelo vestibular da UFBA.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Abbey Road, Clube da Esquina e outras influências

 


Por Nelson Bomilcar


Quando falamos de influências recebidas, como evangélicos, quase sempre negamos o que recebemos "dos de fora", ou negamos nossa história "pré-conversão". Como se não fizesse parte da história de Deus em nossas vidas. Até por que isto não soa santo, espiritual, cristão, evangélico, puro, inspirado ou profético.

Muito desta postura e pensamento existe porque na base e no fundamento teológico de muitos, o mundo foi criado por Satanás e não por Deus, de que o diabo é criador e não criatura, que os homens são criaturas das mãos do diabo e não de Deus, distorcendo a revelação das Escrituras Sagradas. Demos indevidamente o copyright ao inimigo de nossas almas sobre a criação e sobre as artes, e não ao Senhor Deus, Criador, Senhor e Soberano sobre tudo e todos.

História é história, não há como negar ou fazer desaparecer influências que tivemos e ainda temos, e quando tentamos fazer isto, entramos em processos de sublimação, de alienação, de fuga da realidade, sinais de doença instalada e que sugerem a necessidade de processos terapêuticos e de aconselhamentos posteriores.

Alguns ainda sugerem uma tal e distorcida "cura interior" do passado, como se toda a herança e formação que tivemos fossem necessariamente ruins. A herança “adâmica” sim, em nossa natureza, que não nos ajuda no caminho da salvação e redenção. Mesmo assim, ela ainda nos acompanhará até o final dos tempos. Mas outras heranças, com outro foco, de formação cultural, por exemplo, podem ter sido excelentes e nos balizam ainda hoje no que somos, pensamos e fazemos na vida.

Isto não significa que estas pessoas, pensadores ou artistas, são exemplos em tudo de conduta, muitos com vidas e histórias cheias de crises e pecados (como os homens e mulheres da Bíblia). Mas tiveram ou têm alguma capacidade no que fizeram, ou um bom legado que deixaram, seja na área educacional, científica ou artística.

Eu, que não tive "berço evangélico" ou "maternidade evangélica" (afinal, ouvia quase sempre de irmãos: "[...]Eu nasci na Igreja..."), fui menos preconceituoso com o que recebi através de pessoas não cristãs. Em minha formação familiar e estudantil, por exemplo, tive ótimos referenciais e professores que me ajudaram a absorver valores, cultura e informação. Louvo a Deus hoje por eles, e sei que foi Ele mesmo que planejou e os colocou em minha vida. Aprendi inclusive com os erros, limitações, "pisadas na bola" e enganos deles.

Lembro-me do meu irmão Roberto me levando a um show com um público de umas 50 pessoas somente, no teatro da Fundação Getúlio Vargas para assistir um "tal" de Milton Nascimento, Lô e Marcio Borges, Wagner Tiso, Nelson Ângelo, Beto Guedes, Toninho Horta, cantando e tocando coisas maravilhosas deles e de Fernando Brant. De que planeta estes músicos maravilhosos vieram? Quanta beleza e criatividade! Eram do Clube da Esquina, hoje transformado em museu e espaço histórico.

Daí, veio a conversão dos 17 para os 18 anos em 1972. Entro na igreja evangélica e tenho um choque cultural e musical. Começo a tomar contato com músicas do Cantor Cristão, hinário batista, ouvir todos os dias minha mãe tocar ao final de tarde hinos que viriam a fazer parte de minha vida, acompanhar cantatas tocando e cantando, gravar discos evangélicos, fazer parte de um momento na história da igreja no Brasil de avivamento em trabalhos com juventude e da experiência de Vencedores por Cristo.

Por imaturidade e ignorância, anos antes vendi minha guitarra Gibson por achar que não poderia usar "um instrumento que usava na velha vida". Mas tinha uma outra que guardei (pecador eu, não?), uma Fender Jaguar Branca, igual a do Jimi Hendrix, onde toquei e solei no dia do meu batismo dentro de uma igreja batista tradicional o "Vencendo Vem Jesus", com o histórico pedal Big Muff. Quando descobri que instrumento é só "um instrumento", comprei novamente uma Gibson, testemunha até hoje de boa parte da história recente da música cristã.

Um grande amigo nesta época, Gerson Ortega, músico e hoje pastor, ajudou-me muito a lidar com a questão da música. Sentia-me "menos culpado" de ainda gostar de música chamada secular ou "do mundo" quando encontrava na casa dele algum disco de conjuntos e músicos não cristãos que admirávamos.

Inclusive por que pensava e continuo pensando que a criatividade e inspiração têm sido dada a pessoas e artistas não cristãos, que de alguma forma manifestam a criatividade de Deus. Isto é, um incrédulo pode ser mais ou tão criativo do que um crente confesso. É o que constato quando analiso as artes de maneira geral, e quando ouço a mesmice e a falta de criatividade das composições e produções chamadas evangélicas de nossos dias.

O Deus das Escrituras, O Grande Artista, está na simplicidade da vida, nos relacionamentos, no cotidiano, e manifesta sua presença e criatividade também nas artes e em artistas em toda a história. Precisamos é perceber e identificar Sua presença. "Repreender" menos o conteúdo de nossa história e APRENDER mais dela. E adorar a Ele, porque esteve sempre presente em nossa caminhada!



Nota do blog: Nelson Bomilcar é teólogo batista, membro da Associação de Músicos Cristãos do Brasil (AMC), produtor, cantor e compositor do grupo Vencedores Por Cristo, pioneiro da música evangélica brasilera (1968).





segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Batismo


   E mais um espaço virtual meu inaugurado. Aqui postarei – de início, ao menos - opiniões, memórias, imagens, vídeos, letras de músicas, poemas e afins, de minha autoria ou não. Não delimitarei um tema; as circunstâncias definirão o conteúdo e a freqüência das palavras.
   Entretanto, por que Entretanto?
   A diretora da Escola Presbiteriana de Canal (EPC), onde estudei até a Oitava Série, Anadir Carneiro (milagre só presta quando se conhece o santo), certa feita me disse algo, quando fui chamado à Direção. O motivo, não importa; você sabe, a última coisa que se faz no Fundamental é estudar. Pois bem, a temida apontou para meu rosto, proferindo, entre arregalos e salivas:
   - Você é questionador demais, Ewerton!
   Bons tempos. A afirmação foi conseqüência não do meu ato irregular, mas das minhas justificativas pautadas em erros terceiros (leia-se: professores). Eu, menino que era, entendia aquilo como repreensão apenas pelo tom de voz. Hoje sou grato a Prof.ª Didi por estimular uma aptidão tão essencial para o desenvolvimento de outras. De acordo com um comercial da TV Cultura, recentemente veiculado, “não são as respostas que movem o mundo. São as perguntas.” São elas que proporcionam o conhecimento. São elas, as interrogações e as conjunções adversativas.
   Parte da intenção de criar Entretanto se deve a Evelinne, graduanda em Jornalismo/UEPB, blogueira e minha irmã mais velha. Seus elogios quanto às minhas produções textuais – quase sempre com a modesta “é de família” - reforçaram o que tenho pensado há um tempo.
   Além do agradável, o útil: Seguindo o exemplo da Prof.ª de Redação Laura Loura, o blog servirá de arquivo para o treinamento da matéria. Outra pessoa que incentivou, talvez sem saber, foi uma amiga e colega de sala que se chama Amanda Barreto. Após ler alguns escritos meus, disse-me que eu deveria ser escritor de coluna em alguma revista. Sonhos à parte, funciona, a partir de hoje, o diário digital do questionador Ewerton Henrique Dourado.