domingo, 1 de julho de 2012

Escrever é enxergar e entender as pequenices


por Jader Pires
Papodehomem.com.br

Miudezas. São elas que dão todos os sabores para uma boa escrita, pra que ela seja lida com mais gosto.
Eu estava, por esses últimos dias, tendo uma conversa acarinhada com o grande Luciano Ribeiro. Nessa fiada, estava confessando para o tal que eu sentia falta, mais que tudo por aqui, de um horizonte em São Paulo, minha Paulicéia discretamente deselegante.
Sobre a minha revelaçãozinha, o aguerrido Luciano teve a gentil pachorra de me jogar nas fuças que lá em tua terra, a bem aventurada Belém do Pará, há um rio que corta algumas terras e que, de lá de um dos lados, há sempre que se ver o horizonte distante e pacífico, sempre disponível.
Do outro lado do rio, lá pros lados de lá, vivem os ribeirinhos.
De acordo com o Wikipedia, os ribeirinhos “são populações tradicionais que residem nas proximidades dos rios e têm a pesca artesanal como principal atividade de subsistência e cultivam pequenos roçados para consumo próprio. Podem praticar também atividades extrativistas”.
O subterfúgio foi repentino, imediato. Cá estava o segredo da escrita: Entender a miudeza das palavras, os sentidos que elas ganham quase sem querer.
Esse povo que mora além água poderiam ser chamados de ribeirenses, ribeiranos, ribeiros! Mas não. Eles são os ribeirinhos. A delicadeza em mais alto grau, em estado puro de calmaria e modéstia. Que palavra mais linda.
Na parte mais alta desse Brasil, o artigo também mostra, nessa minúcia desavergonhada, a beleza nas coisinhas bem pequeninas. Não é “o artigo do Jader, a shot do Jader”. Por lá, é “o texto de Jader, a casa de Jorge Amado”. Parece pouco? Pense com mais brandura.
Trocar o “do” por “de” faz com que caia como tudo que sucumbe à gravidade a posse, a mesquinharia inocente por toda a elevação das coisas. “Aquela é a poesia de Jader” bota o escrito menino num pedestal efêmero, mas tomado de completo aconchego. Assim como os ribeirinhos são vistos, por esse escritor encabulado, como um povo de vida dura sim, mas levada não aos trancos, mas no balanço das águas, no cafuné das folhas das árvores. Felizes são os ribeirinhos. Afortunados são as pessoas como o Luciano, que passa e tem contato visual com os ribeirinhos, com o horizonte, com a minúcia das palavras a completa disposição. Bobo ele se não souber aproveitar.
Escrever é, sem sombra da menor dúvida, saber ser menor que todas essas pequenices que torna a escrita, uma das delícias mais elevadas dessa vida.


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Releitura


Era uma história cheia de interrogações, exclamações, reticências e grandes pausas entre intensos parágrafos. Era uma história que tinha um clima de madrugada, gosto de vinho, sons de boa música e um perfume que ainda não sabia definir, mas que o era bastante reconhecível.  Um texto que se desenrolava ao passar das horas, que mais pareciam minutos. Cada frase não conseguia sair, em sua mente, do mesmo cenário: uma noite chuvosa em um lugar que via toda a cidade. Sonhava com novos cenários. O final prometia – na verdade, o seu leitor começava a querer que o final não existisse. Começava a querer que aquelas letras o acompanhassem nos seus afazeres diários, queria que todas as alocuções passassem de alocuções; ganhassem vida. Queria que aqueles personagens, que até então de uma crônica fugaz, tornassem autores de um belo romance. Queria. Chegou ao fim da página e, logo então, percebeu na próxima um novo título. Percebeu que o leitor nada pode além de ler. Percebeu que são os personagens que escolhem o desenrolar da trama. E escolheram ser apenas crônica.

sábado, 9 de junho de 2012

0 à esquerda


Ele nunca soube lidar com os controles de vídeo games, tampouco lhe apetecia aprender. Até hoje. Considerava dinossauros em miniatura plástica – destino irônico –, história egípcia e pães-de-mel infinitamente mais interessantes. Mesmo o futebol fora das fitas e botões só lhe preocupou até os doze anos, que é quando sua precoce aposentadoria vem pela invalidez do interesse; começa apenas a acompanhar das arquibancadas e a coleção de medalhas de campeonatos escolares torna-se mera lembrança de fundo de gaveta.
Nunca foi o primeiro a ser escolhido pelos dois capitães que selecionavam quais seriam do time com ou sem camisa – e sempre torcia para permanecer com a camisa, por achar branco demais para tirá-la. Mesmo sendo o dono da bola. Mesmo sendo amigo de um dos dois goleadores. Mesmo sendo filho do diretor do colégio em que jogavam – e isto é importante quando se tem 10 anos.
            Mas também não era o último. Com a estatura acima da média de seus colegas de “baba” – pelada ou racha, na Bahia – da mesma idade, naturalmente conseguia chutar mais forte, e conseguia fazer um gol assim, de vez em quando, apenas chutando forte, sem maiores técnicas e treinamentos, só o bico do pé e ele. Não tinha amor pela bola, não via motivos para beijá-la ao cobrar o pênalti. Falta de técnica tamanha que, por sinal, lhe foi empurrando cada vez mais para o fundo da quadra, local onde sua força poderia ser funcional. “Valeu, velho!” – escutava ao roubar a bola do ataque adversário e chutar para os seus companheiros que assistiam tudo da outra trave, esperando egoistamente a oportunidade de ganhar as glórias do contra-ataque. Dessa forma, foi fazendo amizades com os goleiros do próprio time, até que um deles virasse seu melhor amigo.
            Migrou para o karatê, mas percebeu que a faixa em sua cintura não migrava de cor. Indício que as artes marciais não eram a sua praia. No entanto, o kimono serviu para lhe mostrar que seus membros superiores poderiam obter mais habilidade que os inferiores. Assim, começou a participar das rodinhas de vôlei no recreio, aquele velho “um, dois, três e corta”. E enchia o coração quando conseguia atingir alguém em cheio. A maldade do seu olhar pedia embate, agressividade, pedia revide. Pedia que saísse daquele esporte feminino que só lhe fazia escutar gritos histéricos de quem fosse alvo.
            Mudou de colégio, e se apaixonou enquanto se surpreendia assistindo o esporte praticado em alguns intervalos. Viu que era uma paixão antiga dali, e não compreendia o porquê do não-sentimento nos colegas de outrora. As pessoas corriam, pulavam, se provocavam e se degladiavam para pegar aquela bola menor e mais pesada. Não usavam os pés. E todos a tocavam rapidamente e participavam da jogada, sem que o mérito fosse todo de quem a lançasse. Mas quem possuísse uma maior força física, levaria vantagem.  Perfeito.
            Não se percebeu e tão logo estava já adquirindo joelheiras e tênis apropriados. Locomovia-se mais de vinte quilômetros para o treino semanal sem pestanejar, e sorria ao pensar no motivo que o trazia pela segunda vez ao colégio naquele dia. Estava feliz por isso, e como não? Era o fim de um conturbado relacionamento que já perdurava anos, entre ele e as atividades físicas. Estava bem resolvido e amando.
            De repente, no momento mais sublime do handebol – o assalto à área adversária após os três impulsivos passos –, em slow motion, caiu. Foi derrubado por uma defesa desleal. Sentiu uma pancada forte na perna esquerda, caindo sobre ela ainda, para piorar. Nada doía mais que perceber sua perna dando trabalho em sua vida esportiva novamente.
            Depois do ocorrido, insistiu algumas vezes, mas o joelho pedia sempre arrego. Dada às circunstâncias, aposentou-se novamente, resolveu assumir sua inapetência esportiva e procurar um hobby que não constasse bolas. Foi aí que ele começou a escrever.